domingo, 9 de junho de 2019

Objeção de Consciência

O escritório estava vazio. Todos os associados haviam ido embora e ele, sinceramente, deveria ter feito o mesmo, mas lá estava. 

A luz do abajur iluminava sua mesa impecavelmente limpa, a mesma em que, minutos antes, ele havia se sentado para se recuperar do impacto. Um beijo. Ela havia lhe beijado furtivamente e ele não sabia se vibrava ou se se sentia a pior das criaturas.

Fazia tempo que ele a observava. Via-a lidar com os casos difíceis, com as mudanças de planos corriqueiras em processos criminais, uma verdadeira mulher que domina a sua área. Mas, em alguns momentos, ele percebia seus olhos distantes, como se fugissem do espaço de trabalho para um local secreto, um refúgio que só a sua mente sabia, um lugar em que mais ninguém tinha permissão para entrar. Mas ele queria a chave.

Ela era comprometida. E ele também. Não era casado, não tinha namorada ou coisa do tipo, mas tinha um compromisso fiel com seu trabalho e com as suas convicções. Portanto, aquele beijo inesperado havia mexido com as suas estruturas, abalado o advogado mais vencedor (e talvez por isso, ligeiramente mais arrogante) da firma. Ela o havia beijado, mas fora ele quem a levara a isso. "Encurralar", esse era o termo usado nos bastidores dos processos. Levar alguém a fazer algo que não faria, em uma situação ordinária. Ele só não imaginava que aconteceria, de fato.

Sentindo-se sufocado, ele afrouxou a gravata no pescoço e foi em direção ao seu freezer particular. Retirou uma pequena garrafa de vinho e despejou todo o seu conteúdo em uma taça bonita, presente de um de seus clientes mais famosos. Às vezes, os clientes podiam ser realmente pessoas boas, não apenas meios para ganharem dinheiro. 

A vida, entretanto, podia se tornar bastante cansativa.

Ele se deixou recostar no sofá, local que se tornara mais sua cama nos últimos meses do que qualquer outra em sua residência. Passava tanto tempo naquele pequeno espaço que talvez pudesse considerar pedir uma espécie de usucapião. Ele riu do próprio pensamento e sentiu as bochechas ficarem ligeiramente coradas. O vinho desceu como um carinho, uma mão de veludo a lhe mostrar que as coisas podiam não ser tão complicadas. 

A única coisa que ele queria era não se sentir tão... culpado. A sua consciência lhe dizia que não havia provas de sua má conduta, ao contrário, tudo o que ele fez foi ser presente, algo que sabia que o companheiro dela não era. O "namorado-fantasma", como ele mentalmente o apelidara. Nunca aparecia nas confraternizações, nunca aparecia com ela em fotos de família, aliás, ele tinha algumas dúvidas de que o rapaz realmente conhecesse à fundo algum familiar dela. Ao contrário dele, que a conhecia e toda a sua família, desde a faculdade. Porque, então, aquele beijo o incomodava tanto?

Terminou o vinho e só então percebeu que havia ficado totalmente no escuro. Levantando-se, caminhou até o abajur e notou que a luz havia queimado. Ele retornou ao sofá e se deitou, colocando os pés de sapatos caros em cima do couro macio, algo que ele jamais faria. Mas não estava em plenas condições de se auto-repreender ainda mais.

Pegando o celular do bolso, viu que havia algumas chamadas perdidas, dentre elas uma de um número conhecido. Ela havia ligado para ele há não mais que cinco minutos, porém não deixara recado ou mensagem. Ele respirou fundo, o gosto de vinho em suas bochechas ainda bem intensos. Talvez aquela fosse a hora de simplesmente não fazer nada. Em toda a sua vida, ele havia movido todas as montanhas por quem amava, mas não havia recebido nada em troca. Talvez, aquela fosse a hora dele simplesmente descansar e não tentar uma estratégia de ataque. Uma objeção de consciência, por falta melhor de um termo. 

Fechando os olhos, ele buscou seu próprio refúgio, o lugar que mais ninguém podia entrar.



- B. R.

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